4 de agosto de 2013
1 de agosto de 2013
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Eu nunca vi
Eu nunca vi um Papa pegar o avião carregando uma
maleta.
Eu nunca vi um Papa preso num
engarrafamento dentro de um Fiat com uma multidão ao redor.
Eu nunca vi um Papa manter o vidro do carro abaixado
para estender a mão e tocar as pessoas.
Eu nunca vi um Papa andando rapidinho.
Eu nunca vi um Papa indo na direção que não se
espera que ele vá.
Eu nunca vi um Papa sair debaixo do guarda-chuva.
Eu nunca vi um Papa entrando no meio da multidão.
Eu nunca vi um Papa perguntar: por acaso a gente visita
alguém de quem gosta, um amigo, dentro de uma caixa de vidro?
Eu nunca vi um Papa responder não à pergunta que
fez balançando o indicador.
Eu nunca vi um Papa dizer que pode levar um soco.
Eu nunca vi um Papa dizer que é inconsciente.
Eu nunca vi um Papa deixar a segurança tonta.
Eu nunca vi um Papa dizer é tudo ou nada.
Eu nunca vi um Papa dizer que, ou a gente faz a
viagem com comunicação humana como deve ser, ou não faz.
Eu nunca vi um Papa dizer que comunicação pela
metade não faz bem.
Eu nunca vi um Papa chegar dizendo: permitam-me que nessa hora eu possa bater
delicadamente a esta porta, peço licença para entrar.
Eu nunca vi um Papa dar bom dia e exclamar que bom
estar aqui.
Eu nunca vi um Papa dizer como é bom ser bem
acolhido.
Eu nunca vi um Papa abraçar em vez de dar a mão
para beijar.
Eu nunca vi um Papa tocar o ombro do motorista
pedindo para o papamóvel parar.
Eu nunca vi um Papa descer de repente do papamóvel.
Eu nunca vi um Papa trocar o solidéu por outro que
um fiel lhe estendeu de presente.
Eu nunca vi um Papa afagar criança com ternura sem
que seja para aparecer na foto.
Eu nunca vi um Papa ser chamado de fofo até por não
católicos ou ateus.
Eu nunca vi um Papa reunir no frio e na chuva uma multidão
maior do que Réveillon ou Carnaval.
Eu nunca vi um Papa sempre alegre e bem-humorado.
Eu nunca vi um Papa falar tantas vezes a palavra
alegria com alegria.
Eu nunca vi um Papa que diz que ser cristão é ser alegre, não pode ter cara de luto.
Eu nunca vi um Papa que diz que ser cristão é ser alegre, não pode ter cara de luto.
Eu nunca vi um Papa com cara de quem faz arte.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de fazer arte.
Eu nunca vi um Papa inspirar tantas esculturas de
areia na praia e provocar a transformação do “fio dental” em minissaia.
Eu nunca vi um Papa que não fala em pecado.
Eu nunca vi um Papa a quem eu confiaria um segredo.
Eu nunca vi um Papa falar pouco e dizer muito.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de ouvir o que
ele diz.
Eu nunca vi um Papa coerente.
Eu nunca vi um Papa didático.
Eu nunca vi um Papa explicar primeiro isto, segundo
isso, terceiro aquilo.
Eu nunca vi um Papa perguntar: estão me entendendo?
Eu nunca vi um Papa dizer coisas que todo mundo
entende.
Eu nunca vi um Papa não dar uma de sabichão,
autoridade, dono da verdade.
Eu nunca vi um Papa falar sem rodeios, dizer: olha, o
que eu espero é o seguinte.
Eu nunca vi um Papa dizer que os mais pobres são os
que mais praticam a generosidade.
Eu nunca vi um Papa dizer que sempre é possível botar
mais água no feijão.
Eu nunca vi um Papa repetir um ditado.
Eu nunca vi um Papa dizer que a palavra solidariedade
incomoda muita gente, parece um palavrão.
Eu nunca vi um Papa dizer que a ação vale mais do
que a palavra.
Eu nunca vi um Papa não dar muita trela para os
governantes.
Eu nunca vi um Papa falar claramente dos
governantes.
Eu nunca vi um Papa dizer que não adianta tentar
pacificar a periferia se ela é abandona pela sociedade.
Eu nunca vi um Papa dizer que a medida da grandeza de uma sociedade reside no modo como ela trata os
mais pobres.
Eu nunca vi um Papa dizer que a realidade pode
mudar.
Eu nunca vi um Papa dizer que ninguém é
descartável.
Eu nunca vi um Papa mandar os padres saírem da
paróquia e ir para as ruas, para as periferias, trabalhar para os pobres.
Eu nunca vi um Papa exaltar o entusiasmo e a
criatividade.
Eu nunca vi um Papa entusiasmado.
Eu nunca vi um Papa com faísca nos olhos.
Eu nunca vi um Papa com faísca nos olhos.
Eu nunca vi um Papa com cara de desejo.
Eu nunca vi um Papa brincar que aceitaria um copo d’água,
um cafezinho, cachaça não.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de dar uma
cachaça para ele provar.
Eu nunca vi um Papa que com certeza vai adorar caipirinha.
Eu nunca vi um Papa fazer piada.
Eu nunca vi um Papa dizer que Deus é brasileiro.
Eu nunca vi um Papa sugerir oferecer uma dúzia de ovos a Santa Clara para parar de chover.
Eu nunca vi um Papa dizer que não gosta de dar
opinião sem conhecer.
Eu nunca vi um Papa baixar a cabeça e refletir antes
de responder.
Eu nunca vi um Papa dizer perdão se me estendi e
falei demais.
Eu nunca vi um Papa se desculpar.
Eu nunca vi um Papa agradecer a gentileza do
entrevistador.
Eu nunca vi um Papa dizer que se esqueceu.
Eu nunca vi um Papa dizer que é mal educado.
Eu nunca vi um Papa dizer: vou me atrever dizer uma
coisa, sem ofender.
Eu nunca vi um Papa dizer a palavra gay.
Eu nunca vi um Papa dizer quem sou eu para julgar.
Eu nunca vi um Papa pedir para rezar por ele.
Eu nunca vi um Papa dar gargalhada.
Eu nunca vi um Papa bater palma.
Eu nunca vi um Papa coçar o nariz.
Eu nunca vi um Papa dizer que padre apegado ao
dinheiro é uma ofensa ao povo.
Eu nunca vi um Papa dizer que padre precisa ter carro,
mas não carro de luxo.
Eu nunca vi um Papa dizer que o povo exige
simplicidade e despojamento de pessoas consagradas.
Eu nunca vi um Papa falar a palavra corrupção.
Eu nunca vi um Papa falar de políticos corruptos.
Eu nunca vi um Papa falar de sacerdotes corruptos.
Eu nunca vi um Papa falar do escândalo do Vatileaks.
Eu nunca vi um Papa dizer a palavra Vatileaks.
Eu nunca vi um Papa dizer: que belo serviço esse Senhor presta à Igreja, não? - a respeito de um
monsenhor envolvido num escândalo de milhões de dólares
Eu nunca vi um Papa dizer que sacerdote que age mal
merece punição.
Eu nunca vi um Papa dizer que recusou o apartamento
papal para evitar gastar dinheiro com psiquiatras.
Eu nunca vi um Papa dizer que não consegue viver só: solidão faz mal a ele.
Eu nunca vi um Papa dizer que precisa de contato
com pessoas diferentes.
Eu nunca vi um Papa achar o inconformismo dos
jovens muito lindo.
Eu nunca vi um Papa dizer que quer agito.
Eu nunca vi um Papa dizer que quer agito.
Eu nunca vi um Papa dizer que é preciso ouvir os
jovens.
Eu nunca vi um Papa dizer que os velhos devem abrir
a boca.
Eu nunca vi um Papa dizer que os jovens têm que
deixar os velhos falarem e escutar o que dizem.
Eu nunca vi um Papa perguntar: está claro?
Eu nunca vi um Papa dizer que a utopia não é sempre
negativa: utopia é respirar
e olhar adiante.
Eu nunca vi um Papa dizer que é indisciplinado.
Eu nunca vi um Papa dizer enfant terrible.
Eu nunca vi um Papa dizer que quer tratar gente
como gente.
Eu nunca vi um Papa dizer que não conhece mãe por
correspondência: mãe acaricia, toca, beija, cuida, alimenta, ama.
Eu nunca vi um Papa fazer gesto de embalar um bebê
no colo.
Eu nunca vi um Papa repetir esse gesto e sorrir como um bebê.
Eu nunca vi um Papa dizer que uma Igreja distante
das pessoas é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta.
Eu nunca vi um Papa dizer a palavra outsider.
Eu nunca vi um Papa dizer que a Igreja precisa
sempre ser reformada: coisas que serviam em outras épocas, agora não servem
mais.
Eu nunca vi um Papa dizer que a Igreja tem que ser
dinâmica e responder às coisas da vida.
Eu nunca vi um Papa dizer que não gosta de jovem
que não protesta.
Eu nunca vi um Papa dizer que às vezes a
experiência da vida é um freio.
Eu nunca vi um Papa dizer que os jovens não devem
ser manipulados.
Eu nunca vi um Papa dizer que tem muita gente
querendo manipular os jovens.
Eu nunca vi um Papa dizer que manipulação é um
perigo.
Eu nunca vi um Papa usar a expressão feroz
idolatria do dinheiro.
Eu nunca vi um Papa dizer que quem manda hoje é o
dinheiro.
Eu nunca vi um Papa dizer que a política no mundo
atual é economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético.
Eu nunca vi um Papa dizer que para sustentar esse
modelo há uma política de exclusão de jovens e idosos: eles não produzem, não
servem para nada.
Eu nunca vi um Papa dizer que o jovem e o velho
estão no mesmo barco.
Eu nunca vi um Papa dizer que criança morrendo de
fome e sem educação, mendigos morrendo de frio no inverno, gente doente sem
acesso a tratamento, nada disso é notícia.
Eu nunca vi um Papa dizer que quando as Bolsas das
principais capitais perdem três ou quatro pontos isso é tratado como uma grande
catástrofe mundial.
Eu nunca vi um Papa perguntar: compreende?
Eu nunca vi um Papa falar de humanismo desumano que
estamos vivendo.
Eu nunca vi um Papa dizer que é preciso defender
uma realidade humana, valores éticos.
Eu nunca vi um Papa dizer que cada religião tem
suas próprias crenças e que é preciso respeitar a fé de cada um.
Eu nunca vi um Papa falar que não interessa ficar brigando
por questões de fé, o que interessa é que todos se juntem para acabar com o
sofrimento alheio.
Eu nunca vi um Papa dizer que se tem uma criança
com fome e sem educação, o que importa é que ela deixe de ter fome e tenha
educação.
Eu nunca vi um Papa dizer que ninguém pode dormir
tranquilo enquanto isso existir.
Eu nunca vi um Papa dizer que a única saída é sair
de si mesmo.
Eu nunca vi um Papa filosofar.
Eu nunca vi um Papa falar de construir uma vida
feliz.
Eu nunca vi um Papa dizer que vai sentir saudade.
Eu nunca vi um Papa dizer que já está sentindo
saudade.
Eu nunca vi um Papar dizer a palavra saudade.
Eu nunca vi um Papa que sente.
Eu nunca vi um Papa que tem cara de gente.
Eu nunca vi um Papa de quem a gente sente saudade.
Eu nunca vi um Papa agente.
Eu nunca vi um Papa gente.
Eu nunca vi.
Eu nunca vi-vi.
Antes e depois de Francisco.
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