19 de julho de 2013

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Um elefante branco com cerca de galinheiro





Li no jornal hoje, sexta-feira 19 de julho, que a administração do Maracanã decidiu instalar grades entre as torcidas para evitar brigas no jogo Fluminense X Vasco, domingo próximo. Isso, é claro, enquanto a Copa não chega: aí o Maracanã voltará a arvorar ares de civilidade, padrão Fifa oblige.

Deixem-me ver se eu entendi. Milhões de reais foram gastos na reforma milionária do Maracanã para, uma vez o estádio pronto, grades de proteção serem instaladas no sentido de evitar pancadaria entre torcedores, é isso mesmo?

A "solução", em si mesma tosca, não é menos reveladora do estágio de degrad(e)ação em que se encontra a Política e a Educação no sentido mais radical e abrangente: diz respeito ao Bê a Bá da cidadania e ao cinismo das autoridades para quem gradear é mais seguro do que educar. Na prática, essa degrad(e)ação é dramática e para lá de inquietante. No caso do Maracanã, tem o traço da mais patética caricatura: um elefante branco com cerca de galinheiro.

17 de julho de 2013

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Lógica de jiló




A novata do caixa não sabia o preço do quilo. Pegou um punhado e fez sinal para a colega. Devia ser novata também, não sabia, aconselhou-a: consulta no sistema. 

A moça teve um ar de desamparo, mas seguiu em frente. Teclou o J, o olhar parado na tela. Um instante, dois... permaneceu imóvel, silenciosa. Apagou, teclou de novo o J, depois o I. Parou mais longamente. Nada. Refez o JI, nadinha. Apagou de novo.

Disse-lhe: é "gê". A moça recomeçou: teclou o J, depois o E, JE, "jê". Nada. Insisti: "gê" de "guê”, não “jê” de jota. Ela apagou tudo. Pareceu confusa. Até eu fiquei. Silêncio lento, olhos atentos à tela, os seus e os meus. Recomeçou, teclou o G, depois o I, GI. Fez "gi" não "gê". Eu já ia falar, quando apagou tudo de novo. E agora? Teclou bem devagar o G, depois o E, olhou para a tela - setinha pra baixo...desceu, foi descendo, descendo... até parar: gengibre. Pareceu aliviada, eu também. 
 
Ela sorriu numa amarelice crua, indefesa, desavergonhada. Olhou para mim e disse: eu estava raciocinando como jiló...
 
Gê de jiló, jê de gengibre.
Gê e jê.
Lógica ilójica.

A moça tem é razão: lógica de jiló. 
Se a lógica não dá conta do jiló, o que dirá do desejo. 


15 de julho de 2013

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Pulmões de aço





Une Estonienne à Paris (em português: Uma Dama em Paris), de Ilmar Raag, 2012, é a prova de que para se fazer um bom filme não são precisos efeitos nem acontecimentos espetaculares.

Bastam a palavra e o silêncio.

A palavra que diz e silencia, o silêncio que cala e diz.
Palavra que silencia, silêncio que fala. 
Palavra e silêncio sustentados por uma interpretação que não faz "pronta entrega", muito menos dá "solução", pelo contrário, deixa intactos o enigma do desejo e a crueza da dor. Um duo de atrizes magistral num jogo dramático, instigante, comovente e de extrema sutileza. Tudo amalgamado pela imagem que não força nada, dá simplesmente a ver. Não é a toa que o filme termine num olhar. Um verdadeiro show.

O resultado é a emoção de quem assiste e a sensação de que cinema, mais do que diversão, é respiração. E que interpretar, antes de qualquer outra coisa e acima de tudo, é a arte de saber respirar. De tirar o fôlego de qualquer um.

Vou lhe dizer: Jeanne Moreau e Laine Mägi tem pulmões de aço.

1 de julho de 2013

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Existentamento


A pedra deixou-se cair

O vento dobrou a estrada
passou pela pedra
ouviu um lamento
soprou um segredo
e a fez levitar
mais leve
que o próprio vento

Vi ventar a pedra 
In-ventar a pedra

Viver é um encantamento
um existentamento
de assombrar a vista
e fazer troça da razão



28 de junho de 2013

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Susana "fora do normal"



Em tempos de Fora! - Fora Cabral! Fora Feliciano! Fora Paes! Fora Dilma! - Susana Vieira não poderia estar dentro. Claro. Na capa da revista QUEM desta semana, vê-se o rostinho de adolescente da atriz septuagenária e a manchete: 

“Tenho vivacidade sexual fora do normal”. 

É. Fora do normal. 

Bem, Freud já nos ensinou que humanidade não rima com normalidade. E Caetano já cantou: de perto ninguém é normal. Susana Vieira não foge à regra: deve lá ter suas anomalias sexuais bem vivazes como todo mundo. Nisso, ela não está fora de nada. Fora está de outra coisa

Para início de conversa, que Susana Vieira tem uma vitalidade de tirar o fôlego e fazer inveja a muita mulher de 30, 40, isso tem. Ser Rainha de bateria de uma Escola de Samba, mesmo sem ter samba no pé, não é para qualquer uma. E que isto fique bem claro: tudo é escolha, e não se trata aqui de fazer um juízo de valor acerca da escolha pessoal de ninguém. Ainda que possa parecer curioso ou esdrúxulo alguém julgar que sua "vitalidade (sexual) fora do normal" tem relevância pública, o que importa não é a escolha de Susana em fazer alarde disso na pele da ninfeta sempre na flor da idade, mas o que está em jogo nesta escolha.

Cada vez que vejo uma nova foto de Susana Vieira me lembro do personagem do filme O Curioso Caso de Benjamin Button: ele nasce com oitenta e poucos anos e rejuvenesce a cada dia que passa. Assim Susana se nos parece: sua imagem retroage no tempo à medida que este avança. Cada dia mais vangloriosa, mais hiperativa, mais  juvenil, mais “fora do normal”. Rosto perfeito de boneca, sorriso imaculado, tez rosada, aveludada como o pêssego, narizinho afilado, nenhuma ruga, marca, vestígios de passado, só um imperativo: jovem! sempre jovem! cada dia mais jovem! A imagem de Susana na capa da revista não é a de uma mulher madura que sabiamente aprendeu a negociar com o tempo e a tirar belo partido dele: é a camuflagem photoshopada da verdade impossível de se photoshopar, enganar, dissimular - cada um de nós é e se sabe temporal. E é disso que ela está fora ou tem a ilusão de estar: da aceitação serena e positiva do tempo que lhe daria, esta sim, uma renovada e verdadeira juventude. 

O tempo é mesmo aterrador, angustiante. Ninguém escapa, não tem jeito: é a norma de todos nós. Deixa sempre sua marca, marca da finitude que somos. Por isso assusta, e um pouco de ilusão é preciso para viver. Arte, cinema, novelas, livros, amores, erotismo, cosméticos, cirurgias plásticas, para que servem? Não nos dão vivacidade em nossa lida com o tempo? Nada mais "normal". Fora do "normal" não é ter vivacidade, longe disso: é querer se iludir, numa vaidade cega e sem limites, que se pode ficar fora do tempo. Em vez de viva(c)idade, vil-vaidade: isto sim pode ser ainda mais aterrador do que o próprio tempo.

Como diz o verso latino: Vanitas, vanitatum omina vanitas...