31 de julho de 2012

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Invenção genial

Anotado em Paris 8:



Que falar traz benefícios, não foi preciso esperar Freud para a gente se dar conta: os padres e confessionários são testemunhos disso. Mas antes dele, ninguém nunca se perguntou por que razão falar tem efeitos terapêuticos. A hipótese de Freud é a seguinte: se falar abranda o sofrimento, age no sintoma, é porque o sintoma tem a ver com a fala. Se o sintoma fosse totalmente estrangeiro à ordem da linguagem, não haveria razão para a linguagem ter algum efeito no sintoma. Essa foi a incrível invenção de Freud, a qual Lacan leva às últimas consequências: há um elo estrutural entre inconsciente e linguagem. O inconsciente, diz Lacan, é estruturado como uma linguagem. Isso permite entender por que falar acarreta consequências grosso modo terapêuticas. Uma análise se baseia única e exclusivamente na fala, ela age no corpo com as palavras e o silêncio.

30 de julho de 2012

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A grande lição de Freud

Anotado em Paris 8:

“A grande lição de Freud é a seguinte:  qual é sua participação nessa desordem do mundo da qual você se queixa?”

29 de julho de 2012

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Transação

Anotado em Paris 8: 

A expressão neutralidade benevolente, utilizada às vezes por Freud para se referir à conduta clínica do analista, deixa claro que não há identificação do analista com o paciente. Simpatia, empatia, compaixão, compreensão são sentimentos nobres cuja natureza é suspeita numa relação terapêutica, uma vez que poderiam descambar para outra coisa: amizade, amor. O divã é feito para um só se deitar, dois não dá certo. A relação analítica é baseada numa transação - Você me escuta, eu pago! A gente paga o analista justamente para que ele não seja um amigo. O dinheiro é um elemento simbólico que garante a neutralidade do analista.

28 de julho de 2012

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O bilhete da castração

Anotado em Paris 8 :
 
"A castração é o bilhete de entrada do neurótico no mundo.
O psicótico é aquele que se recusou a comprar o bilhete,
não quis pagar o preço da castração"

27 de julho de 2012

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Quando balança

A gente só procura uma análise quando a identificação balança. Algo de Real se apresenta porque o ideal balançou.

3 de abril de 2012

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O beijo



Edvard Munch. The Kiss. 1897, Munch Museum, Oslo
 
Quando entrei na sala, ela estava sentada, pés descalços apoiados na poltrona, os bracinhos ao redor das pernas dobradas, as mãos segurando os dedinhos dos pés, queixo apoiado nos joelhos. Parecia encolhida de frio. Seu cabelo mudara completamente, loiro, puxado para trás, preso com fita azul, formando um longo rabo de cavalo. A pele demasiadamente clara, um pouco pálida, talvez reflexo de sua blusa de tricô amarela, de trançado grosso, e que de tão larga, parecia ter-lhe sido emprestada, afofando-lhe a silhueta fina. A mesa mudara também: o grande tampo de vidro retangular cedeu lugar a uma mesa pequena, quadrada, em madeira clara, não mais encostada na parede, mas sim no centro da sala, ela sentada defronte à mesa. Não me disse nada, nem bonjour, apenas me olhava. Não sentei, continuei em sua direção, atravessei a sala, passei pela mesa, pus-me de pé ao seu lado. Ela levantou a cabeça, imediatamente me abaixei e beijei-lhe a boca. Enquanto sentia seus lábios nos meus, ouvia sua voz murmurante:

- Eu não devia...não devia...

Acordei.
Hora de ir para a análise.