Ando mesmo consternado, atônito,
triste até. Dia após dia, a
França - tão querida França dos direitos humanos, gosto pela(s) cultura(s),
movimentos de avant-garde, savoir-vivre refinado, arte, pensamento,
língua e literatura incomparavelmente belas - vem mostrando uma face
assustadora.
Discurso
rasgadamente xenófobo e passeatas reacionárias gigantes nas ruas de Paris têm
sido frequentes de uns meses para cá. É óbvio, qualquer pessoa minimamente
avisada sabe, que não expressam o sentimento da maioria dos franceses, muito
pelo contrário: representam apenas alguns grupos militantes de extrema direita
e simpatizantes. O que não é menos de se estranhar. Na última quarta-feira, 5
de junho, mais esta: agressões perpetradas por skinheads nos arredores
da estação Saint-Lazare, bem no centro de Paris, ocasionaram a morte de
um estudante de 19 anos. Mais do que preocupante, assustador, aterrador. Em
meio a tanta absurdez, lancei aos quatro ventos um desabafo desesperado:
ALGUÉM PODE ME EXPLICAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO, NÃO NA
FRANÇA, MAS COM A FRANÇA???
Uma amiga francesa de Paris 8 veio
prontamente em meu socorro: “A devastação da imbecilidade alimentada pela
ignorância, plantadas em solo de pulsões não sublimadas ... O que você quer que
lhe diga? É consternador, não mais surpreendente ...”
Para bom entendedor meio pingo é
letra, e para os psicanalistas, a (não) sublimação das pulsões, é Freud.
Segundo o pai da psicanálise, sublimação é o processo através do qual a pulsão
(energia sexual) é canalizada para atividades não sexuais (tais como a
criação artística ou intelectual): ela permite a vida, mais ou menos
harmoniosa, em sociedade. No caso de não sublimação, a pulsão pode se voltar
para atos de agressão e violência. De certo, Freud sempre dá panos pra manga.
Polêmica também. Lacan, é claro, botou fogo na lenha, resgatou a sublimação
freudiana, foi além. Mas uma coisa ficou: na sublimação, o vazio ou a falta de
sentido ganham forma, permitindo que cada um se relacione com o outro na
criação de formas e valores socialmente valorizados. Do contrário, o que se pode esperar
são comportamentos associais, brutais e devastadores como o assassinato do
jovem Clément Méric.
Seja como for, a França vem dando mostras coletivas de que em
tempos de crise real nada melhor do que um bode expiatório como remédio
imaginário. Melhor para se piorar o que já está ruim: desemprego
galopante, recessão econômica, pessimismo da população, intolerância, ódio,
incertezas. Nesse contexto, que muito faz lembrar, guardadas as devidas
proporções, o da Alemanha dos anos 1920, hostilizar um inimigo fabricado por
líderes extremistas e inflamado pela fantasia popular, é um passo para o que a
gente sabe bem o quê. Não há Paris, França, Mundo que resista às chamas.
Meu coração também não.

