21 de junho de 2013

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A Copa da cidadania









Quem esteve na Passeata hoje à noite no Centro do Rio viu uma das mais bonitas e emocionantes cenas jamais vistas na cidade: a Avenida Presidente Vargas integralmente tomada, da Candelária à Prefeitura, por uma multidão pacífica, reivindicativa e irreverente, bem a cara do Rio. Carnaval, futebol? Nada disso. Cidadania. A nova cara do Rio, a nova cara do Brasil. De chorar de emoção.


E também de indignação. A Polícia Militar, impiedosa e mal preparada, esbanjou bombas de gás lacrimogênio na multidão, provocando tumulto, corre-corre e feridos. Uma total irresponsabilidade: o pior só não aconteceu por força dos manifestantes que, recusando com veemência qualquer provocação, bradavam em monumental uníssono: 

VIOLÊNCIA NÃO!

VIOLÊNCIA NÃO!

VIOLÊNCIA NÃO! 


Uma moça acabou atingida por um disparo de não sei bem do quê e permaneceu estirada no chão. A multidão revoltada engrossou o coro:

PM VERGONHA DO BRASIL!

PM VERGONHA DO BRASIL!

PM VERGONHA DO BRASIL!


A PM-VERGONHA-DO-BRASIL prosseguiu sua ação truculenta enquanto helicópteros faziam estardalhaço com holofotes sobre milhares de cabeças, e bombas de gás não paravam de espocar em todos os cantos. Eram tantas! O que as justifica se a manifestação era pacífica? A impressão que se tinha é que vinham do céu. Será? Se for, além de vergonha, gratuidade pérfida e covarde. 


Aos poucos, rechaçada com violência, a multidão foi recuando, tomando calma e lentamente o caminho de volta para casa, com seus cartazes, faixas, bandeiras verde-amarelo. Mas deixou feito um rastro na avenida uma promessa em coro gigante:

NÃO VAI HAVER COPA!

NÃO VAI HAVER COPA!

NÃO VAI HAVER COPA! 


O recado está dado. 

É o País que adora futebol como nenhum outro que está dizendo isso. Ouviram bem? 

É o País do futebol que diz abrir mão da Copa, não da cidadania. Compreenderam bem?

Podem até dizer que brasileiro tem memória curta, gosta de brincar. Mas sei não: acho que os milhões nas ruas não estão para brincadeira não. 

20 de junho de 2013

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Não foge à luta






Uma aluna me disse que leu não sabe onde que o Brasil mudou de status. Passou de “deitado eternamente em berço esplêndido” a “verás que um filho teu não foge à luta”. 


Brilhante! Parabéns a quem teve a sacada. 


Claro, salve! salve! o poeta Joaquim Osório Duque Estrada, que ostenta estrelado o  verde-louro desta flâmula. Embora pouca gente traga a letra do hino nacional na ponta da língua e não entenda bem o que ela quer dizer, uma coisa é certa: "gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza, terra adorada". Alguém duvida?


Mas foi preciso um deslocamento, nas ruas e nos versos, para fazer surgir um sentido novo na História. E um tempo novo também. A gente sempre soube, mal ou bem a letra, que entre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada, e que dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil, mas só agora, em 2013, de alguma forma, a gente parece se reconhecer nos versos, na letra, na História do País.


Exatamente o que a gente faz numa análise em relação à nossa própria história: nós mudamos de status. A gente se deita no divã justamente para não continuar adormecido, para despertar para a nossa vida, a nossa verdade. A verdade, no sentido analítico, não é sinônimo de exatidão, mas de construção, ela é da ordem do "eu sempre soube mas só agora, através da minha fala, eu me reconheço". Numa análise a gente passa de deitado eternamente em berço imaginário a verás que um sujeito não foge à luta pelo desejo.


Luta pelo desejo, ó Pátria amada, não verás, mas estás a ver: filho teu não foge à luta. Refiro-me naturalmente aos que te amam e te adoram de verdade, os que estão nas ruas, aos milhares, milhões, não para matar nem morrer, mas para viver por ti.


A gente sempre soube do gigante pela própria natureza, mas só agora a gente se reconhece no que conseguimos conquistar com braço forte.