7 de agosto de 2013

2

Salv-ação





Pedalando
Olho para o alto
O que vejo?

Corcovado
Cristo Redentor

Reconfortante
Este Outro
Que sela
Vela
Zela
Por nós

Senhor! Salva-nos da dor
Vida errante
Sentido ausente

Salvador
Salva-dor!

Mas sobre este Outro
Redentor
Nuvens sempre a pairar
E os mesmos braços no ar
Estão como que a nos soltar:

Criatura!
Nada posso por ti
Que não faças tu mesmo
Te vira!

Angústia
Desamparo
Vazio do céu
Des-espero

Bem-aventurados os que desesperam
Pois seu reino é aqui mesmo na Terra!
Des-esperar liberta a ação
Des-esperar salva a ação

Salv-ação
Salve-a-ação!

Salv-ação é lavoura e colheita
Fertilidade revolta de incertezas
Invenção infinita dos homens

5 de agosto de 2013

6

Só vista. Só vendo. Só eu.



Marcos Chaves, Eu só vendo a vista, 1998
Uma obra do MAR - fabuloso Museu de Arte do Rio - mostra uma vista aérea da Enseada de Botafogo com o Pão de Açúcar ao fundo, e a seguinte frase em destaque sobre o céu azul:

EU SÓ VENDO A VISTA 

Achei graça de alguém vender a vista, e mais ainda, de a vista estar à venda, em se tratando nada menos do que um dos mais belos cartões postais do mundo. Fiquei pensativo: que outras coisas poderiam estar à venda e não estão? De súbito, senti uma pequena vacilação na apreensão do sentido do enunciado:

Só a vista está à venda?

Só eu faço a venda da vista?

Só eu vendo em dinheiro?

Venda da vista é só o que eu faço?

Só faço a venda se for em dinheiro?

Vejo a vista sozinho?

Não faço outra coisa senão ver a vista?

Eu só vendo a aparência?

Eu só cubro os olhos?

Só se eu vir a vista?

Só se eu vir o pagamento em dinheiro?

Eu só tapo a vista?

Só vejo o olhar?

...

A qual desses sentidos remete o enunciado da obra? Qual deles é o verdadeiro? Essa questão enseja a gente pensar numa tripla imbricação entre linguagem, arte e psicanálise. E claro, a questão da verdade costurando as três. 

A linguagem supõe que uma palavra tenha aproximadamente o mesmo sentido para todos para os falantes de uma mesma língua: este acordo é condição sine qua non para a comunicação. Dito isso, nada determina o sentido de uma palavra: a significação é sempre instável e incerta, como demonstra a minha vacilação em relação ao sentido de: EU SÓ VENDO A VISTA. Isso porque somente dentro e através do contexto é que a significação adquire uma certa consistência. Insisto: uma certa consistência. Para a psicanálise, o significante não é unívoco, mas equívoco, depende do contexto, das ocorrências onde é empregado. Quando se desloca uma palavra ou uma frase de seu contexto original, o sentido se desloca. É o que faz a arte: ao mover os significantes EU SÓ VENDO A VISTA para a Enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar, o artista cria um contexto o qual produz um significado diferente. É o que Lacan chama de efeito metafórico. 

A exemplo do artista, o psicanalista também desloca os significantes: em vez de tentar compreender o que diz o analisando, ele o incentiva a dizer o contexto, isto é, abre caminho a outros significantes. Para quê? Para provocar no analisando uma palavra diferente, um sentido novo. Mesmo quando o analisando diz algo que parece óbvio, para o psicanalista, os significantes nunca são suficientes para uma compreensão. Nunca. Numa análise, trata-se de ir além das convenções da linguagem e supor que a mesma palavra signifique algo singularmente para um sujeito e não para outro. É o que faz com que o psicanalista não busque compreender, mas sim fazer com que o analisando produza texto e contexto. Fazer análise é isto: produzir texto, e sobretudo, contexto. É aí que o sujeito ouve um significado novo do que ele diz, descobre que ele diz algo que não pensara ter dito. 

Donde a importância fundamental para a psicanálise da pontuação. O trabalho do analista é tal qual o de um editor: o analisando chega com um texto e sai com outro. Mas o analista não escreve o texto: ele tira uma vírgula, põe um ponto, reforça uma palavra, corta. Essa pontuação, que pode culminar com a suspensão da sessão - o corte - tem como finalidade instaurar um vazio de significação e provocar no analisando uma nova interpretação. Cabe sempre a ele, e tão somente a ele, interpretar a questão: o que isso quer dizer? Da mesma forma que cabe sempre a cada um de nós, e tão somente a cada um, interpretar o sentido de EU SÓ VENDO A VISTA. 

Eis porque linguagem, arte e psicanálise não são questão de exatidão, e sim de interpretação. A interpretação nunca é definitiva: o sentido permanece sempre aberto. A verdade, diz Lacan, tem estrutura de ficção”. 

É só vista. 
Só vendo. 
Só eu.

4 de agosto de 2013

4

Arrep(R)io



Depois da gente encher a alma com a sensação de ter curtido a praia mais linda, a tarde mais linda, o entardecer mais lindo - pronto! - pega a bicicleta de volta para casa sem esperar mais nada: a gente é só o cheiro da tarde, paixão que arde na pele. 

Daí, a gente vira o Posto 6 - meu Deus!!! - assalto-me os olhos! A praia mais linda, o finzinho do crepúsculo mais lindo, o anoitecer mais lindo, o colar de estrelas mais lindo, pisca-pisca no mar: a gente é só o cheiro de noite, saudade que arde na pele. 

O Rio é como a pele da gente: entardece de paixão e anoitece de saudade, só para a gente amanhecer de novo e se arrepiar de desejo. 

Rio, minha pele: eu me arrep(R)io todo!  
Vem amor, vem...vem comigo se deitar?

0

Na crista do ócio



Vi um rapaz na orla vestindo uma camiseta escrito:
 
SOL, VENTO E ONDA. 
RECURSOS INESGOTÁVEIS PARA O ÓCIO CRIATIVO 

Achei genial. Não sei quem bolou.
Mas que é para lá de criativo, isso é.
Se foi um surfista, com certeza não ficará nunca a ver navios.


Adele Enersen, Mila surfando