20 de maio de 2013

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Não pode faltar





O gigante intelectual Antônio Cândido escreveu um belo artigo - lá se vão mais de dez anos - no qual elenca dez obras indispensáveis para se conhecer o Brasil. O artigo* (publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate, com data de 30/09/2000) está circulando na internet, prova de que, no meio de tanta bobagem e estupidez, muita coisa boa existe e resiste.

Vale a pena lê-lo na íntegra. Ainda que a gente sofra, como foi meu caso do início ao fim da listagem, em constatar que não leu nada, ou quase nada, de realmente essencial acerca da História do Brasil.

No último parágrafo, simpatizei-me com Antônio Cândido ao nos fazer parte de seu remorso “não apenas por ter excluído entre os autores do passado (...) mas também por não ter podido mencionar gente mais nova (...) etc. etc. etc. etc”. Muito digno e elegante. Ninguém duvida que sua tarefa é hercúlea e que há que se ter o cacife intelectual comparável ao seu para bancá-la. E critérios rígidos para levá-la a cabo, no caso em questão, os de sociólogo-historiador.

Mas modestamente, e com o maior respeito do mundo, peço licença ao escritor e militante para fazer uma pequena-tripla ressalva: sem a ironia crônica de Machado de Assis, a pitada sensual de Jorge Amado e o "matutês" de Guimarâes Rosa, dá para conhecer o Brasil? Sem falar nas absurdezes de Clarice...

Pronto: sem querer, já tenho quatro nomes para a minha lista do que não pode faltar. Faltam seis: socorro!


* Na íntegra:
http://blogdaboitempo.com.br/2013/05/17/antonio-candido-indica-10-livros-para-conhecer-o-brasil/ 

19 de maio de 2013

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(Minh)a hora e (minh)a vez do diospyros kaki






Confesso que sempre o achei bonito. Doce e saboroso também. Mas não a ponto de preferi-lo a outros integrantes da fruteira:  manga, abacaxi, abacate, tangerina, laranja. Desde minha infância lembro-me dele à mesa, meus pais fazendo-lhe elogios, enaltecendo suas virtudes. Acho que fiquei com a ideia de que ele era mais para o gosto dos adultos que das crianças. Às vezes o tinha nas mãos, sem muita alegria ou convicção, mordia-o, achava bom, sem exaltação. Parecia-me meio sem graça, o sabor muito aquém de sua cor, mais para se ver do que para se comer. Sem falar na viscosidade esquisita: era muita lambança para pouco prazer. Anos a fio o desdenhei, fiz pouco caso dele, o preteri, sem muita consciência de fazê-lo. Simplesmente vivi com ele deixando-o para lá: o conheci desconhecendo-o, o avistei sem vê-lo, o provei sem descobri-lo. E mais do que isso: sem saber o que eu estava perdendo. Tão frequentemente humano, não?


Mas sempre é hora de despertar para a extraordinária novidade daquilo que pensamos conhecer bem e que, na verdade, não conhecemos. Foi o que aconteceu comigo. A cor, sempre a vibrar. Eu já deveria ter atinado: cores não vibram à toa. Macio no toque, a pele muito fina, delicada como a seda oriental. Amadurece rápido, tão rápido, que de um dia para o outro, se abre no simples apertar de dedos e desmancha-se na língua como um pudim. E que fineza de sabor! - sutil como uma flor. Só poderia ter vindo do Oriente.


Seu nome, que origem tem? Não sabia, soube hoje. Em Portugal, chamam-no de dióspiro (diospyros), do grego dióspuron que significa "alimento de Zeus". Entre nós, cá, aqui: caqui, do japonês kaki. Dióspiro ou caqui, é realmente dos deuses. Não é à toa que levei tanto tempo para finalmente descobri-lo: chegar ao paladar do Olimpo requer aprendizagem, longa maturação dos sentidos.


Seja como for, agora é (minh)a hora e (minh)a vez do caqui: não tenho mais um segundo sequer de sabor a perder. A vida é feita para se lambuzar.