3 de abril de 2012

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O beijo



Edvard Munch. The Kiss. 1897, Munch Museum, Oslo
 
Quando entrei na sala, ela estava sentada, pés descalços apoiados na poltrona, os bracinhos ao redor das pernas dobradas, as mãos segurando os dedinhos dos pés, queixo apoiado nos joelhos. Parecia encolhida de frio. Seu cabelo mudara completamente, loiro, puxado para trás, preso com fita azul, formando um longo rabo de cavalo. A pele demasiadamente clara, um pouco pálida, talvez reflexo de sua blusa de tricô amarela, de trançado grosso, e que de tão larga, parecia ter-lhe sido emprestada, afofando-lhe a silhueta fina. A mesa mudara também: o grande tampo de vidro retangular cedeu lugar a uma mesa pequena, quadrada, em madeira clara, não mais encostada na parede, mas sim no centro da sala, ela sentada defronte à mesa. Não me disse nada, nem bonjour, apenas me olhava. Não sentei, continuei em sua direção, atravessei a sala, passei pela mesa, pus-me de pé ao seu lado. Ela levantou a cabeça, imediatamente me abaixei e beijei-lhe a boca. Enquanto sentia seus lábios nos meus, ouvia sua voz murmurante:

- Eu não devia...não devia...

Acordei.
Hora de ir para a análise.

11 de dezembro de 2011

2

O beijo

Quando entrei no consultório, ela estava sentada, pés descalços no assento
da poltrona, os bracinhos ao redor das pernas, as mãos segurando os dedos
dos pés, queixo apoiado nos joelhos. Parecia encolhida de frio. Seu cabelo
mudara completamente, loiro, puxado para trás, preso com fita azul formando
um longo rabo de cavalo. A pele demasiadamente clara, um pouco pálida,
talvez reflexo da blusa amarela de tricô, trançado grosso, e que de tão larga,
parecia ter-lhe sido emprestada, afofando-lhe a silhueta fina.
A mesa mudara também: o grande tampo de vidro retangular cedeu lugar
a uma mesinha quadrada, madeira clara, não mais encostada na parede, mas
no centro da sala, ela sentada em frente. Não me disse nada, nem bonjour, apenas
me olhava. Não sentei, continuei em sua direção, passei pela mesa, pus-me
de pé ao seu lado. Ela levantou a cabeça, imediatamente me abaixei e beijei-lhe
a boca. Enquanto sentia seus lábios nos meus, ouvi sua voz murmurante:
– Eu não devia... eu não devia...
Acordei.
Hora de ir para a análise.

1 de setembro de 2011

8

Triunfo do tempo

 
Amar é ter saudade do que é
no instante exato em que se vive
o presente de ser
ser presente

Eis o único mandamento do amor
sua amoralidade desavergonhada
eternidade nua:

- Vive, criatura!
com quem escolhes teu
e que a ti escolhe seu
de tal forma
que tenhas saudade
não do que poderia ter sido e não foi
mas do que é



O amor é o triunfo do tempo sobre si próprio


25 de agosto de 2011

5

A palavra e o dito


Anotado em Paris 8:

"O analista escuta a palavra, mas ouve o dito" 

6 de agosto de 2011

4

Lógica do desejo



Anotado em Paris 8:

“O desejo é um ímã que nos atrai,
contra o que consideramos sensato, razoável. 
 A lógica do desejo é ilógica. 
Por isso, o desejo é sempre perturbador,
é sempre um ponto de interrogação”