1 de outubro de 2015

0

Taxista da ó(é)tica






Uma moça que foi ao Rock in Rio, tendo esquecido o celular no banheiro, conseguiu recuperá-lo: “Não sei quem foi, mas agradeço muito”, postou feliz da vida no Facebook, vibrando mais do que qualquer roqueiro.
Fez-me lembrar um episódio que ocorreu comigo há alguns anos quando fui pela primeira vez ao Espaço Cultural Tom Jobim, no coração do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Adentrar a natureza noturna sob o clarão da lua, por entre casas coloniais e árvores frondosas, já teria valido o programa. A peça era Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, mas o ponto alto da noite, que a fez valer para toda a vida, foi uma lição, ou melhor, uma ação concreta de ética. Isso mesmo: a ética ainda existe, não no dicionário ou livro de filosofia, mas na prática.
A peça já se encerrara, quase meia-noite. Um taxi parado à entrada do grande portão de ferro piscava os faróis, o mesmo que eu pegara em Copacabana - um aceno de mão, o taxista saiu do carro.
- O senhor deixou cair seus óculos no banco de trás –  dirigiu-se a mim estendendo-me o  Ray-Ban.
- Meus óculos? – surpreendi-me com o que não havia me dado conta até então batendo a palma da mão no bolso vazio da calça.
- Já tinha passado aqui faz uma hora mais ou menos, mas o espetáculo ainda não tinha acabado, daí resolvi dar mais uma corrida e voltei.
- Nossa, muito obrigado - apertei-lhe a mão admirado com o gesto - o senhor veio aqui, esperou, foi e voltou, perdeu todo esse tempo...poxa, muito obrigado...obrigado mesmo.
- Não foi nada, fiz minha obrigação - respondeu-me kantianamente - Pensei em deixar com os guardas do Jardim, mas achei melhor entregar os óculos na sua mão.
Fiquei entre contentamento e embaraço diante do taxista segurando os meus óculos que àquela altura, eram mais do que simples óculos, haviam sido transformados pela ótica do taxista: um homem que naquela noite de domingo dera voltas no relógio e na cidade para cumprir o que ele próprio considerara sua obrigação, obrigação que ele livremente se impusera. Livremente por quê? Porque nada o obrigava a isso, senão uma escolha sua. O taxista disse bem: a obrigação era dele, foi ele que se lhe a deu, escolheu. Nem mesmo o que poderia ter-lhe servido como desculpa ou impedimento  – horário de trabalho, contratempo das idas e vindas, espera prolongada, incerteza de me encontrar, “achado não é roubado” – o desobrigou, pelo contrário: todas essas possibilidades foram a condição mesma da sua obrigação. A obrigação moral - o que chamamos comumente de voz da consciência - anda de mãos dadas com a liberdade, escolha de uma ação dentre várias possíveis. Se não sou livre para escolher, não posso me sentir moralmente obrigado a nada. O filósofo Alain dizia de forma bem humorada e certeira que “a moral nunca é para o vizinho”: ela é a resposta à pergunta “o que eu devo fazer?” (e não “o que os outros devem fazer?”: isso é moralismo), a ação que eu escolho como sendo “minha obrigação” independentemente do olhar do outro - “sem que os deuses e os homens saibam” como dizia Platão - e de qualquer sanção ou recompensa.
Naturalmente, há sempre um pensamento malicioso à espreita: “Obrigação moral? Que nada! O taxista só fez isso esperando algo em troca, dinheiro, lógico." Sim, é sempre uma possibilidade, infelizmente das mais prováveis num País como o nosso onde o cinismo e a malandragem solaparam os ideais de virtude e dever em todos os níveis da sociedade: otário é quem não se dá bem. Em se tratando do taxista, não foi o caso. O desenrolar da história provou por si mesmo.
Voltei para casa com o taxista, é claro. Na hora de pagar, dei-lhe o dobro, triplo sei lá, do valor marcado no taxímetro.
- Não senhor, muito obrigado, esse dinheiro é seu, - devolveu a quantia a mais que lhe dera. Insisti.
- Não senhor, fiz o que era minha obrigação, esse dinheiro é seu – sorriu meneando a cabeça.
Por um instante senti-me orgulhoso desse homem, de mim, da humanidade, como se no meio de toda essa lama em que estamos afundados e à qual nos acostumamos como se fosse uma fatalidade, algo viçoso e inquebrantável permanecesse vivo, sempre pronto a surpreender e a dignificar o que chamamos de espírito. Despedimo-nos sem eu saber seu nome, quisera eu talvez saber mais sobre ele, um pouco de sua vida. Hoje, ao ler a postagem da moça do Rock in Rio - “Não sei quem foi, mas agradeço muito” – revejo a cena, eu e o homem face a face, eu e meus óculos, o homem e sua ótica. Bateu forte, feito urgência. Desejo, desejo de palavra:
“Não sei quem foi”, mas é de conduzir-se assim que carecemos todos na vida.
“Não sei quem foi”, mas é de condutores assim que urge nosso País.
“Não sei quem foi”, mas é sob essa ótica que precisamos enxergar as coisas mais corriqueiras do dia a dia e orientar nossas ações.
“Não sei quem foi” mas é desse gesto que faço-me esperança - não na harmonia utópica entre humanos - mas na compatibilidade cordial de todas as singularidades existentes no universo.
“Não sei quem foi”, mas só tem um nome: ética.
E ética não tem preço, unicamente apreço: apreço à ação que se obriga a cumprir em respeito a si e ao outro.
A humanidade está perdida, “procura-se”: o taxista da ó(é)tica e o benfeitor anônimo do Rock in Rio dão pistas de onde e como reencontrá-la. A força do que se perdeu reside na certeza, não de se achar, mas de que se está buscando. 

Claudio Pfeil



18 de abril de 2015

0

(I)mu(n)do

Que a política brasileira está (ou é) imunda, não é novidade para ninguém. Assim como não é novidade que muita gente anda defendendo "intervenção militar" como solução. 

Se não me falha a memória, Alceu Amoroso Lima, grande pensador brasileiro, disse que é preferível a poluição da democracia à assepsia da ditadura. 

No mínimo há que se atentar para isto: numa "intervenção militar" nenhum de nós poderia expressar sua livre opinião, o cala boca é geral. O que também não é novidade para ninguém. Mas cabe no entanto ser lembrado 24 horas por dia, 365 dias no ano. 

Caso contrário, o que é imundo, em vez de "solução", vai ficar sim: (i)mu(n)do.


28 de março de 2015

0

Poasia





Estação de trem de Tristeza, Porto Alegre, 1910

Tristeza. Passei por ela, vi a placa. Lembrei-me da encomenda do Diário. Nome de rua tal, número tal, bairro: Tristeza. Isso mesmo, Tristeza. Achei poético demais, pareceu-me verso do Quintana. Tem Diário no verso, na Tristeza.

Tristeza verso tem reverso, é lenda, dizem: onde hoje é o bairro, havia faz tempo uma chácara cujo dono de tão triste com a morte da amada passou a ser conhecido como “o Tristeza” – “Vai aonde? Vou lá no Tristeza". Acabou morrendo de amor o Tristeza, de tristeza: cumpriu seu destino de ser triste até o fim, tristeza sem fim. Ó tristeza.

Verso, lenda, realidade

Foi-se a amada, ficou o Tristeza
Foi-se o Tristeza, ficou a chácara
Foi-se a chácara, ficou a Tristeza
Foi-se a tristeza, ficou a poesia

Porto Alegre 
Tristeza
Tristezalegre 
Poa:
Poasia

19 de março de 2015

0

Com o pau na mão


Eduardo Cunha admite
Eduardo Cunha demite
Eduardo Cunha aumenta
Eduardo Cunha corta
Eduardo Cunha pressiona
Eduardo Cunha ganha
Eduardo Cunha exige
Eduardo Cunha nega
Eduardo Cunha ameaça
Eduardo Cunha cede
Eduardo Cunha fala
Eduardo Cunha cala
Eduardo Cunha mostra
Eduardo Cunha esconde
Eduardo Cunha vocifera
Eduardo Cunha amansa
Eduardo Cunha morde
Eduardo Cunha assopra
Eduaurdo Cunha prende
Eduardo Cunha solta
Eduardo Cunha bate
Eduardo Cunha afaga
Eduardo Cunha isso
Eduardo Cunha aquilo

Cacete! Eduardo Cunha tem o falo do tamanho do Brasil!
Alguém tem dúvida de quem realmente está com o pau na mão?

0

Engodo da gozobrigação


Gozar é um imperativo na sociedade atual. Passamos de uma época onde gozar era tabu/pecado a outra onde gozar é uma obrigação: goze! goze! goze! Era da gozobrigação: nenhuma falta, nenhuma tristeza, nenhuma ferida são toleradas. É a ideia de que a incompletude humana é sanada com o consumo: a gente tem que consumir para ser feliz, quem não consome, está f....

Consumir e gozar: eis o mandamento da nossa era, era da gozobrigação globalizada. A publicidade, a indústria de remédios, do cinema, do sexo, os iPods, iPhones, os i mais não sei o quê 1, 2, 3, 4, 5, 6 e infinitamente, estão aí para isso: abafar a falta e vender felicidade. Há um anúncio de refrigerante que diz: "abra a felicidade". Genial. Digo, um engodo genial. É nesse "engodo da gozobrigação" que estamos todos afundados, nossas vidas, nossos corpos, nossa sexualidade, nossa alma, e a que "50 tons de cinza" nos leva a refletir. Bem podemos chamá-lo "50 tons de um engodo".

https://www.facebook.com/events/1547846972156068/



18 de março de 2015

0

De-trator à altura?


Dos meus tempos de Filosofia na Sorbonne, um dos ensinamentos mais valiosos que trouxe para minha vida foi este, dito por uma grande mestre: "il faut être à la hauteur de ce que l'on critique"

É preciso estar à altura do que se critica. Michel Onfray, filósofo detrator da psicanálise, mais badalado por isso do que por suas ideias filosóficas, talvez nunca tenha atinado para tal. Imaginou que pudesse ler e compreender a fundo Freud em seis meses, e a partir de então, demoli-lo com o trator de provocações bombásticas movido por seu carisma sedutor. Quanto mais o trator arrasa, mais o de-trator parece se comprazer diante do espelho. Sua primeira investida contra Freud foi o "Livro negro da psicanálise", lançado em 2010. Cinco anos depois, foi a vez da segunda: "O Crepúsculo de um ídolo. A fabulação freudiana", numa alusão ao título da obra de Nietszche. Deste último, Onfray, sejamos honestos, herdou por assim dizer a virulência, só. Mas o que é a virulência por si só? Deixo a pergunta no ar. O que sobra da Psicanálise depois do de-trator? Resumidamente isto: a teoria do inconsciente é balela, a psicanálise é um placebo e só é válida para as próprias neuroses de Freud. Deixo a conclusão do de-trator à livre (psic)análise de cada um.

O que me interessa por ora é o seguinte: Michel Onfray está à altura do que ele critica? Não me atrevo. Quem sou eu para responder? Mas outros respondem por mim, e eu subscrevo. Vou citar apenas dois.

Elisabeth Roudinesco, que dispensa apresentação. Mesmo assim, direi que trata-se não somente de uma psicanalista renomada assim como  das mais respeitadas historiadoras e biógrafas da França: sua obra perpassa a Revolução Francesa, Filosofia, Epistemologia, Judaísmo, e naturalmente Freud e Psicanálise (seu último livro é uma biografia de Freud justamente). Escreveu o roteiro de um belíssimo documentário intitulado "Freud e a invenção da Psicanálise. Amando-a ou não, há que se estar a altura dela. Foi precisamente Roudinesco quem se deu o trabalho, digno de um historiador obsessivo, de fazer o que ela mesma qualificou de “inventário dos erros e desvios” cometidos por Michel Onfray, numa espécie de livro-resposta ao de-trator intitulado: Por que tanto ódio?Vale a pena ler. No mínimo damo-nos conta do seguinte:  é nas alturas que a autora se coloca para desmontar peça por peça do de-trator raso.

Jacques-Alain Miller, precisa  apresentar? "Herdeiro espiritual da obra de Lacan", se diz e se repete nos quatro cantos do mundo. Já virou um sobrenome: Jacques-Alain Miller-herdeiro-espiritual-de-Lacan. Quer queiram seus admiradores, quer torçam a cara seus desafetos. Só vou dizer uma coisa. Sem ele, a Psicanálise hoje não seria o que é: se Lacan falou, foi Jam, como brincamos em chamá-lo em Paris 8, que escreveu e publicou, e continua a fazê-los. Mutatis mutandis, arriscando uma analogia longínqua e chistosa, Lacan é Sócrates, JAM é Platão. Amando-os ou não, há que se estar a altura deles.

Pois bem. Acabo de ler o longo artigo "Onfray déménage", de autoria de JAM, publicado em La régle du Jeu (http://laregledujeu.org/2015/03/18/19763/onfray-demenage/). Uma vez não bastou, tive que ler e reler. Se Roudinesco faz um “inventário dos erros e desvios” do de-trator da Psicanálise, aqui é questão de Política no sentido grego da palavra, virtude do filósofo, homem da ágora, do espaço público. Reflexão fina, complexa, contundente, misteriosa, irônica, erudita, bem ao estilo de JAM. Há que se ter fôlego, não é para qualquer um.

Não é mesmo. O artigo de JAM tem destinatário certo. E não mede palavras, ou melhor, mede cada palavra, com régua e estilete. 

Talvez seja este o momento do destinatário ouvir o ensinamento da grande mestre da Sorbonne: "é preciso estar à altura do que se critica". E deixar o de-trator por um instante de lado, e se perguntar ante o espelho, sem charme ou artifício: sinceramente, estou?