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| Marcos Chaves, Eu só vendo a vista, 1998 |
Uma obra do MAR - fabuloso Museu de Arte do Rio - mostra uma
vista aérea da Enseada de Botafogo com o Pão de Açúcar ao fundo, e a seguinte
frase em destaque sobre o céu azul:
EU SÓ VENDO A VISTA
Achei graça de alguém vender a vista, e mais ainda,
de só a vista estar à venda, em se
tratando nada menos do que um dos mais belos cartões postais do mundo. Fiquei
pensativo: que outras coisas poderiam estar à venda e não estão? De súbito,
senti uma pequena vacilação na apreensão do sentido do enunciado:
Só a vista está à venda?
Só eu faço a venda da vista?
Só eu vendo em dinheiro?
Venda da vista é só o que eu faço?
Só faço a venda se for em dinheiro?
Vejo a vista sozinho?
Não faço outra coisa senão ver a vista?
Eu só vendo a aparência?
Eu só cubro os olhos?
Só se eu vir a vista?
Só se eu vir o pagamento em dinheiro?
Eu só tapo a vista?
Só vejo o olhar?
...
A qual desses sentidos remete o enunciado da obra?
Qual deles é o verdadeiro? Essa questão enseja a gente pensar numa tripla imbricação
entre linguagem, arte e psicanálise. E claro, a questão da verdade costurando
as três.
A linguagem supõe que
uma palavra tenha aproximadamente o mesmo sentido para todos para os falantes
de uma mesma língua: este acordo é condição sine
qua non para a comunicação. Dito isso, nada determina o sentido de uma palavra: a significação é sempre instável e
incerta, como demonstra a minha vacilação em relação ao sentido de: EU SÓ VENDO
A VISTA. Isso porque somente dentro e através do contexto é que a significação
adquire uma certa consistência. Insisto: uma certa consistência. Para a psicanálise, o significante não é unívoco,
mas equívoco, depende do contexto, das ocorrências onde é empregado. Quando se
desloca uma palavra ou uma frase de seu contexto original, o sentido se desloca.
É o que faz a arte: ao mover os significantes EU SÓ VENDO A VISTA para a
Enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar, o artista cria um contexto o qual produz um significado diferente. É o que Lacan chama de
efeito metafórico.
A exemplo do artista, o psicanalista
também desloca os significantes: em vez de tentar compreender o que diz o
analisando, ele o incentiva a dizer o contexto, isto é, abre caminho a outros
significantes. Para quê? Para provocar no analisando uma palavra diferente, um
sentido novo. Mesmo quando o analisando diz algo que parece
óbvio, para o psicanalista, os significantes nunca são suficientes para uma
compreensão. Nunca. Numa análise, trata-se de ir além das convenções da linguagem e supor que a mesma palavra
signifique algo singularmente para um sujeito e não para outro. É o que faz com que o psicanalista não busque compreender, mas sim
fazer com que o analisando produza texto e contexto. Fazer
análise é isto: produzir texto, e sobretudo, contexto. É aí que o sujeito ouve um
significado novo do que ele diz, descobre que ele diz algo que não pensara ter
dito.
Donde a importância fundamental para a psicanálise da
pontuação. O trabalho do analista é tal qual o de um editor: o analisando chega
com um texto e sai com outro. Mas o analista não escreve o texto: ele tira uma
vírgula, põe um ponto, reforça uma palavra, corta. Essa pontuação, que pode culminar
com a suspensão da sessão - o corte - tem como finalidade instaurar um vazio de significação e provocar no
analisando uma nova interpretação. Cabe sempre a ele, e
tão somente a ele, interpretar a questão: o que isso quer dizer? Da mesma forma
que cabe sempre a cada um de nós, e tão somente a cada um, interpretar o
sentido de EU SÓ VENDO A VISTA.
Eis porque linguagem, arte e psicanálise não são questão de exatidão, e sim de interpretação. A
interpretação nunca é definitiva: o
sentido permanece sempre aberto. “A
verdade, diz Lacan, tem estrutura de ficção”.
É só vista.
Só vendo.
Só eu.