9 de maio de 2016

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Paixão de língua



La croquise, Claudio Pfeil

Boulangerie é uma espécie de bastião do savoir-faire patisseiro e panificador francês. Diria até que qualquer savoir que se possa ter ou imaginar da França passa por ela: é nela que se vive o dia a dia da França, pois é nela que a França se faz no dia a dia. Para mim, é uma experiência sensorial tão intensa e rica, que equivale a um rito de iniciação espiritual através do qual todos os sentidos são convocados: acordem sentidos! Hora mesmo de acordar: o galo gaulês já está fazendo cocoricó!
Pois ir à boulangerie é conhecer e reconhecer a cultura francesa no que ela tem ao mesmo tempo de tradicional e inventiva, rústica e requintada, metódica e lúdica, gustativa e visual, experiência muito mais genuína do que subir na Torre Eiffel ou passear no Champs-Elysées. De fazer mesmo o galo cantar. É saborear o gosto francês, não apenas o que aguça o paladar, mas também, como dizia minha avó, dá pasto à vista: a arte de confeitar e enfeitar, arranjar e apresentar, uma espécie de jardin à la française a atrair o olhar, como néctar, o beija-flor. 
 Canteiros de doces derretendo-se na língua que passeia entre eles, espelhos de glacé refletindo olhos namoradeiros, merengues suspirando como casais de cisnes, cobertura de frutas tão finamente compostas que só a mordida do beijo justificaria desmanchá-las, chafarizes caramelizados salivando na boca, laçarote de seda nas trufas e bombons feito chapéu de menina, cestos de junco jorrando pães feito brotos de primavera. Aromas de maçã e canela, pera e chocolate, damasco e pistache, limão, morango, framboesa, frutas vermelhas, mirabelle, ganache, misturam-se aos aromas quentinhos do forno rumo às vitrines e prateleiras. Tudo a germinar, florescer, avivar, apetecer: croissants, pains au chocolat, brioches, pains aux raisins, pains aux noix, chaussons aux pommes, chouquettes, palmiers, sablés, viennoiseries, financiers, canelés, quiches, tartelettes, flans, clafoutis, millefeuilles, éclairs, fraisiers, fondants au chocolat, babas au rhum, religieuses, forêts noires, crèmes brûlées, Opéra, Saint-Honoré, Paris-Brest... Ah! Já ia me esquecendo dele - como pude? 
Sua excelência, o macaron, que de algum tempo para cá virou coqueluche, para festa de uns, nem tanto de outros. Outro dia, ouvi de um anfitrião um desabafo: tragam-me qualquer coisa de sobremesa, mas s’il vous plaît, não me tragam ma-ca-ron! Foi assim mesmo, sílaba por sílaba, deliciosamente: ma-ca-ron. Tem uns na rue de Saint-Honoré, sabor champagne, de cassis também...e o de caramel? 
 Hão de dizer que exagero com tantos significantes, que exagero a mim mesmo. Reconheço, estou sendo barroco, excessivo. Assumo: excedo-me, mordo-me inteiro de paixão dessa língua que me dá água na boca só de pronunciar.


Claudio Pfeil

29 de abril de 2016

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A cor da chuva


A cor da chuva, Claudio Pfeil


O Rio hoje, um certo ar de Paris. 

Chuva, luz fosca, escorrer melancólico das horas refletido no asfalto, fachadas sombrias, mudas, janelas fechadas. Até a montanha que vejo do meu escritório, sempre verdejante, hoje parece diluir-se nas gotas dançantes da vidraça. O Rio descobre-se cinza, parece estranhá-lo, padece da monocromia e pergunta-se: onde estou, quem sou? Em Paris o cinza é arte, no Rio, estrangeirice.

Lembrei de minha senhoria da rue Hermel, uma senhora elegante, sempre nos trinques. Numa tarde chuvosa, atravessávamos o Bois de Boulogne em seu carro quando subitamente me indagou: 

 - Vous avez remarqué que la pluie à Paris est argentée?

Quase tive um sobressalto: "você já reparou que a chuva de Paris é prateada?" Achei graça com o que para ela parecia óbvio, para mim não. Passei a prestar mais atenção. 
Começou com a prata, naquela tarde em Paris. Desde então, toda vez que chove, abro bem os olhos e me pergunto: que cor tem essa chuva? 

A chuva chove, molha, e eu vivo inventando uma cor para ser só dela. 

A chuva do Rio é maravilha.
Paris argentum, Rio mirabilis.

Claudio Pfeil

13 de abril de 2016

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(Minha) Hora e vez do Diospyros Kaki




Confesso que sempre o achei bonito. Doce e saboroso também. Mas não a ponto de preferi-lo a outros integrantes da fruteira:  manga, abacaxi, abacate, tangerina, laranja. Desde minha infância lembro-me dele à mesa, meus pais fazendo-lhe elogios, enaltecendo suas virtudes. Acho que fiquei com a ideia de que ele era mais para o gosto dos adultos que das crianças. Às vezes o tinha nas mãos, sem muita alegria ou convicção, mordia-o, achava bom – bom? – bem, sem muita exaltação. Parecia meio sem graça, o sabor muito aquém da cor, mais para se ver do que para se comer. Sem falar na viscosidade esquisita, os dedos lambuzados de mais para um prazer de menos. Anos a fio o desdenhei, fiz pouco caso dele, o preteri, sem muita consciência de fazê-lo. Simplesmente vivi com ele deixando-o para lá: o conheci desconhecendo-o, o avistei sem vê-lo, o provei sem descobri-lo. E mais do que isso: sem saber o que eu estava perdendo. Tão frequentemente humano, não?

Mas sempre é hora de despertar para a extraordinária novidade daquilo que pensamos conhecer bem e que, na verdade, não conhecemos. Foi o que aconteceu comigo. A cor, sempre a vibrar. Eu já deveria ter atinado: cores não vibram à toa. Macio no toque, a pele muito fina, delicada como seda oriental. Amadurece rápido, tão rápido, que de um dia para o outro, se abre no simples apertar de dedos e desmancha-se na língua como um pudim. E que fineza de sabor! - sutil como flor. Só poderia ter vindo do Oriente.

Seu nome, que origem tem? Não sabia, soube hoje. Em Portugal, chamam-no de dióspiro (diospyros), do grego dióspuron que significa "alimento de Zeus". É a fruta que Ulisses comeu na Odisséia e que o fez esquecer tudo. Entre nós, cá, aqui: caqui, do japonês kaki. Dióspiro ou caqui, é realmente dos deuses. Não é à toa que levei tanto tempo para finalmente descobri-lo: chegar ao paladar do Olimpo requer aprendizagem, longa maturação dos sentidos.

Seja como for, agora é (minh)a hora e (minh)a vez do caqui, não tenho mais um segundo sequer de sabor a perder: A vida é feita para a gente se lambuzar: a viscosidade do caqui é promessa. Bora fazer uma kakipirinha?

Claudio Pfeil

9 de abril de 2016

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Entre concordar e compreender





Uma leitora escreveu-me uma longa mensagem. Naturalmente, não vou entrar no teor da mesma, seria totalmente indelicado e desrespeitoso. Permitirei-me apenas desenvolver um ponto que me chamou particularmente a atenção, o qual, no meu entender, sustenta e fomenta essa guerra entre diferentes « discursos », partidários ou não, seja nas redes sociais, seja no bate-boca, ou ainda no corpo a corpo. 

A leitora faz parte de sua admiração pelo meu trabalho, mas diz também estar bastante chateada e desapontada em relação ao meu "ponto de vista". De minha parte, li e reli atentamente sua mensagem, a qual pode ser resumida nisto : ela não concorda comigo, e por conta disso, não compreende minha posição. Por vezes, tive a sensação de que ela fazia menção a coisas que não tinham nada (ou pouco) a ver com minha escrita; por vezes, pareceu me desabonar pretextando exatamente a mesma coisa que eu penso, certa como 2 + 2 são 4 de estarmos às antípodas um do outro. Ou seja: ela se chateia comigo por eu não estar de acordo com ela, e embora diga respeitar meu ponto de vista, não consegue compreendê-lo uma vez que discorda dele, ainda que os motivos por ela alegados não difiram em essência dos que eu costumo sustentar através da minha letra. Ela afirma defender a democracia, eu também. Ela está certa disso, eu também. Em suma, estamos e não estamos no mesmo barco.


A primeira coisa que me ocorreu foi lhe indagar: você leu meu artigo? Ela demorou-se um pouco a responder. Insisti. Finalmente disse : não. Em seguida, fez algumas considerações mais, e despediu-se anunciando a intenção de não mais acompanhar meu trabalho.



O que dizer? Deixei-a à vontade para fazer o que lhe conviesse. Convidei-a, antes, a ler meu texto e, caso naturalmente desejasse, a dialogar depois. A saber que, dialogar exige, como condição sine qua non, que os interlocutores observem rigorosamente uma diferença radical. Que diferença é essa ?



Compreender não tem nada a ver com concordar, concordar não tem nada a ver com compreender.



Pode-se concordar compreendendo.

Pode-se compreender discordando.

Pode-se não compreender concordando.

Pode-se não compreender e não concordar.



Não sou bom matemático, mas nessa equação envolvendo gosto e pensamento, aquela aula chata e complicada de análise combinatória não só cabe como serve para evitar a guerra que estamos vivendo atualmente no front político entre palpiteiros e debatedores (« debatedores ») entrincheirados. Ouço e leio muita gente se indignando contra a « disseminação do ódio », mas a maioria não move uma palha mental sequer para evitá-lo, pelo contrário, quer porque quer que o outro concorde com ela. Nenhum dos lados quer dialogar : o que cada um quer é estar certo, que o outro lhe dê razão. O objetivo não é se acordar, ver de que maneira diferentes perspectivas podem ampliar a visão de todos, mas de fazer com que um se dobre à certeza do outro. Do lado oposto da trincheira, mesmíssima tática, quase sempre malograda. A guerra está deflagrada, a língua come solta. Conheço uma que defende a democracia com tantas unhas e dentes que facilmente engoliria aqueles que acusa de fascistas só por não estar de acordo com ela. O resultado é tanto o desgaste pessoal quanto o deterioramento das relações : no melhor dos casos (como o da leitora em questão), a pessoa se sente chateada e desapontada, em casos mais dramáticos, ofendida e mortificada por uma miscelânea de sentimentos de amargura e rancor.



Há que se atentar, repito, para a diferença radical entre concordar e compreender. Vou dar um exemplo literalmente feijão com arroz: uma amiga minha quando vem à França, traz feijão e arroz na mala. Sabe por quê ? Ela torce o nariz para comida francesa, da qual sou fã, e prefere forrar o estômago em casa para não ter que passar perrengue na rua. Portanto, discordamos radicalmente : ela odeia, eu adoro – é tanto um direito dela quanto meu. Se eu pretender ou induzi-la a concordar comigo a fim de sentarmos à mesa de um restaurante parisiense em torno de um « confit de canard » , morrerei de fome e perderei uma amiga. Ela corre menos risco porque eu adoro feijão com arroz, mas o raciocínio no sentido inverso continua valendo.



O que não impede a nenhum dos dois de compreender a riqueza sensorial e histórica da culinária francesa, e de reconhecer, além do gosto de cada um, os motivos que fazem dela uma das mais inventivas, bonitas e refinadas e que cultura universal, até então, foi capaz de criar. A « cuisine française » não é meramente um conjunto de receitas e ingredientes, é uma « instituição », no sentido em que institui um modo de vida e uma concepção estética e degustativa da temporalidade: é toda uma orquestração do conviva com a atmosfera e o ritmo que envolve a refeição – o aperitivo, a mesa, a entrada, o pão, o vinho, o prato principal, a sobremesa, os queijos, o digestivo, os intermináveis bate-papos, as baforadas de cigarro. Da mesma forma, um texto é mais do que um simples conjunto de gostos e preferências : é uma orquestração de ideias, e compreender um texto é ser capaz de perceber a orquestração interna que as fundamenta. Discordar simplesmente por discordar, defender simplesmente por defender, atacar simplesmente por atacar, é não ver as possíveis orquestrações do mundo. Minha amiga pode continuar a torcer o nariz para « aqueles queijos fedorentos » como ela diz, e eu, a sentir água na boca só de pensar neles, os dois vivendo em paz, à mesma mesa, cada um com seu prato. É bom que seja assim. Como diz Schiller: agradar a todo mundo é perigoso.



Trazendo o « arroz e feijão » ao momento político atual. Eu posso ser contra o impeachment e compreender as razões que levam uma pessoa a apoiá-lo, assim como o contrário. O que me autoriza a classificar todos os que são contra o impeachment de corruptos, ou todos o que o apoiam de golpistas ? Que autoridade é essa ? Que democracia é essa ? A verdadeira esfera da democracia não é feita de simples concordância ou discordância, simples defesa ou ataque, é feita de compreensão. Entenda-se : compreensão das diferenças e afirmação do direito de cada uma ser como é em respeito mútuo.



Por fim, se através da minha letra eu me faço compreender, alegro-me com isso. Se, por sua vez, os que me leem alegram-se com ela, alegro-me tanto mais. Porém, se num ou nos dois casos isso não acontecer, não faz mal : escrever para mim é uma espécie de urgência amorosa, e esse chamado – peço licença por esse egoísmo - ninguém toma de mim. Escrevi dia desses : sou chama pensante, que arde e titubeia, mas insiste em pensar. O destino do pensar, aprendi com os gregos, é o diálogo. E como diz a colega Eliane Brum : o instrumento mais transgressor desse momento histórico é o diálogo. 

Claudio Pfeil