1 de dezembro de 2013

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Português dois de um





Lisboa, compra de tíquete, ou como dizem aqui, de «título», de metrô. Seguimos as instruções da máquina. Tecla VIAGEM, apertar; tecla CARTAO RECARREGAVEL, apertar; tecla UNIDADES, número: 2 ; NOTA OU MOEDAS, inserir; TROCO E CARTAO, devolução, Tlim-tlim de moedas, um cartão e dois papeizinhos de recibo. Estranhei ter saído apenas um cartão: não havia pedido duas unidades? De certo, unidade quer dizer viagem: são duas viagens no mesmo cartão. Mas para quê dois recibos? Um recibo para cada viagem? Bem, o importante é pegar o metrô, ou, na pronuncia daqui, «métro», dá no mesmo.
Na roleta, cartão junto ao leitor magnético - a luz verde acendeu, a portinha de vidro se abriu: um de nós passou. Minha vez agora. De novo: cartão junto ao leitor magnético – a luz vermelha acendeu, CARTAO INVALIDO. Fui até o guichê:
- Bom dia, acabei de comprar um cartão com duas unidades, passei uma vez, deu certo, na segunda deu inválido.
- Pois então, o senhor tem um cartão com duas unidades, não é? As duas unidades não podem ser para pessoas diferentes  – disse-me a portuguesa numa rapidez embolada.
Não entendi: desde quando duas unidades formam uma identidade? 1 + 1 = 1? Talvez ela não tivesse me entendido, vai ver que por conta do meu sotaque:
- Na máquina eu pedi duas unidades, mais veio um só cartão…- tentei explicar melhor.
- As unidades do cartão não servem para pessoas diferentes, só servem para um…
Fiz que entendi a lógica do «dois de um» e lá me fui comprar uma unidade válida só para mim. Navegar é preciso, entender não é preciso.
Chegamos a Portugal.

7 de novembro de 2013

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A cor da chuva




O Rio hoje, um certo ar de Paris. 

Chuva, luz fosca, escorrer melancólico das horas refletidas no asfalto, fachadas sombrias, mudas, janelas fechadas. Até a montanha que vejo do meu escritório, sempre verdejante, hoje parece diluir-se nas gotas dançantes da vidraça. O Rio descobre-se cinza, parece estranhá-lo, padece da monocromia e pergunta-se: onde estou, quem sou? Em Paris o cinza é arte, no Rio é estranheza. 

Lembrei de minha senhoria da rue Hermel, uma senhora elegante, sempre nos trinques. Numa tarde chuvosa, atravessávamos o Bois de Boulogne em seu carro quando subitamente me indagou: 

 - Vous avez remarqué que la pluie à Paris est argentée? 

Quase tive um sobressalto: "você já reparou que a chuva de Paris é prateada?" Achei graça com o que para ela parecia óbvio, para mim não. Passei a prestar mais atenção. 

Começou com a prata, naquela tarde em Paris. Desde então, toda vez que chove, abro bem os olhos e me pergunto: que cor tem essa chuva? 

A chuva chove, molha, e eu vivo inventando uma cor para ser só dela. 

A chuva do Rio é maravilha. 

Paris argentum, Rio mirabilis.

23 de outubro de 2013

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Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise Rio


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Hamlet no divã



René Magritte



Antes de fazer análise, a gente é aquele que ama ou odeia, a gente é isso ou aquilo. Quando se começa uma análise, a gente se descobre como aquele que ama e odeia, como isso e aquilo. Como sustentar tal contradição? 

Do ponto de vista da razão e da lógica, obviamente, não dá. Pois os dois princípios lógicos fundamentais, inaugurados pelo filósofo Parmênides, são o princípio de identidade e o de não contradição. De maneira simples: o primeiro diz "o ser é", o segundo, "se o ser é, seu contrário (o não ser) não é". A identidade desconhece negação, diferença, movimento, tempo, mudança: tudo isso contraria a própria noção de identidade. Se eu sou o que sou, ou o que penso ser (o que equivaleria à verdade do meu ser), o contrário do que sou ou do que penso ser é necessariamente falso. Tal perspectiva lógica levou outro filósofo, Descartes, séculos e séculos mais tarde, a enunciar uma das, se não a mais conhecida das máximas filosóficas, espécie de florão do racionalismo: “penso logo existo”. Foi preciso Freud e a psicanálise para sustentar a contradição à contracorrente da lógica e da identidade: é justamente onde não há lógica que está a verdade do sujeito. “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”, subverte Lacan. 

A psicanálise trabalha com o que justamente escapa ao sentido, com a falta de sentido, com o que não se fecha. Uma análise é feita para provocar a divisão na gente: é o que Lacan chama de sujeito dividido, “sujeito barrado” (simbolizado por Lacan como $: a “barra” sobre o “S” designa a falta de unidade, nossa divisão). A divisão que ela provoca é a porta de entrada para a verdade que nos é mais própria, e que no entanto nós desconhecemos, uma vez que é inconsciente e totalmente ilógica. A verdade analítica é da ordem de uma lógica ilógica. 

O dilema que a gente enfrenta numa análise não é ser ou não ser, é ser e não ser. Eis a questão. 

Hamlet no divã.