24 de julho de 2013

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Sem "olhai por nós"






Mais forte do que a chuva, o frio, a neve, o vento, a Jornada da Juventude, o Papa: o gozo. Realmente não dá trégua. Entra estação, sai estação, ele ali, intrépido, imperativo, hiperativo.

Criaturas passam o ano inteiro reclamando do "calor infernal" carioca. Amaldiçoam-no, clamam socorro!, praguejam contra os trópicos, o sol escaldante, invejam os nórdicos, idolatram o paraíso alpino: ah, isto sim é viver! Daí chega o inverno - inverno, ouviram? - e como que cedendo aos queixumes sudorosos, o termômetro baixa, radicaliza, resolve dar a louca, desaba, vai até menos zero. 

Mas cadê que o gozo baixa? Que nada! Ele vem sempre mais, e mais, e mais... 
Gozo é excesso, abscesso, obsesso, não há temperatura nem queixa que deem conta: gozar é coisa do além...
 
E lá (re)desaguam as criaturas a gozar numa intempérie sem fim, não do guarda-chuva, do cobertor, do pulôver, da luva e do gorro ao alcance da mão, e sim da queixa gozosa, esta, cuja satisfação é fora de alcance. E sem redenção: não tem “olhai por nós”. 

A propósito, para que serve mesmo uma análise?

19 de julho de 2013

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Um elefante branco com cerca de galinheiro





Li no jornal hoje, sexta-feira 19 de julho, que a administração do Maracanã decidiu instalar grades entre as torcidas para evitar brigas no jogo Fluminense X Vasco, domingo próximo. Isso, é claro, enquanto a Copa não chega: aí o Maracanã voltará a arvorar ares de civilidade, padrão Fifa oblige.

Deixem-me ver se eu entendi. Milhões de reais foram gastos na reforma milionária do Maracanã para, uma vez o estádio pronto, grades de proteção serem instaladas no sentido de evitar pancadaria entre torcedores, é isso mesmo?

A "solução", em si mesma tosca, não é menos reveladora do estágio de degrad(e)ação em que se encontra a Política e a Educação no sentido mais radical e abrangente: diz respeito ao Bê a Bá da cidadania e ao cinismo das autoridades para quem gradear é mais seguro do que educar. Na prática, essa degrad(e)ação é dramática e para lá de inquietante. No caso do Maracanã, tem o traço da mais patética caricatura: um elefante branco com cerca de galinheiro.

17 de julho de 2013

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Lógica de jiló




A novata do caixa não sabia o preço do quilo. Pegou um punhado e fez sinal para a colega. Devia ser novata também, não sabia, aconselhou-a: consulta no sistema. 

A moça teve um ar de desamparo, mas seguiu em frente. Teclou o J, o olhar parado na tela. Um instante, dois... permaneceu imóvel, silenciosa. Apagou, teclou de novo o J, depois o I. Parou mais longamente. Nada. Refez o JI, nadinha. Apagou de novo.

Disse-lhe: é "gê". A moça recomeçou: teclou o J, depois o E, JE, "jê". Nada. Insisti: "gê" de "guê”, não “jê” de jota. Ela apagou tudo. Pareceu confusa. Até eu fiquei. Silêncio lento, olhos atentos à tela, os seus e os meus. Recomeçou, teclou o G, depois o I, GI. Fez "gi" não "gê". Eu já ia falar, quando apagou tudo de novo. E agora? Teclou bem devagar o G, depois o E, olhou para a tela - setinha pra baixo...desceu, foi descendo, descendo... até parar: gengibre. Pareceu aliviada, eu também. 
 
Ela sorriu numa amarelice crua, indefesa, desavergonhada. Olhou para mim e disse: eu estava raciocinando como jiló...
 
Gê de jiló, jê de gengibre.
Gê e jê.
Lógica ilójica.

A moça tem é razão: lógica de jiló. 
Se a lógica não dá conta do jiló, o que dirá do desejo. 


15 de julho de 2013

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Pulmões de aço





Une Estonienne à Paris (em português: Uma Dama em Paris), de Ilmar Raag, 2012, é a prova de que para se fazer um bom filme não são precisos efeitos nem acontecimentos espetaculares.

Bastam a palavra e o silêncio.

A palavra que diz e silencia, o silêncio que cala e diz.
Palavra que silencia, silêncio que fala. 
Palavra e silêncio sustentados por uma interpretação que não faz "pronta entrega", muito menos dá "solução", pelo contrário, deixa intactos o enigma do desejo e a crueza da dor. Um duo de atrizes magistral num jogo dramático, instigante, comovente e de extrema sutileza. Tudo amalgamado pela imagem que não força nada, dá simplesmente a ver. Não é a toa que o filme termine num olhar. Um verdadeiro show.

O resultado é a emoção de quem assiste e a sensação de que cinema, mais do que diversão, é respiração. E que interpretar, antes de qualquer outra coisa e acima de tudo, é a arte de saber respirar. De tirar o fôlego de qualquer um.

Vou lhe dizer: Jeanne Moreau e Laine Mägi tem pulmões de aço.

1 de julho de 2013

3

Existentamento


A pedra deixou-se cair

O vento dobrou a estrada
passou pela pedra
ouviu um lamento
soprou um segredo
e a fez levitar
mais leve
que o próprio vento

Vi ventar a pedra 
In-ventar a pedra

Viver é um encantamento
um existentamento
de assombrar a vista
e fazer troça da razão