6 de junho de 2014

0

Coroa de Prata




Paris de cinza ontem
tão linda ficou
que hoje o sol
cauteloso
resolveu dar uma espiadinha
Com temor de roubar
à grande dama
o traje
pouco brilhou
retirando-se tímido
trás das nuvens
A lua curiosa
quis a dama também espreitar
mais sutil
aguardou um momento
Conhece bem os segredos do cinza!
E no redondo da hora
cheia bem cheia
de si de encanto
de sonho de amor
abriu um arco no céu
fez-se coroa
e prateou a rainha
como só ela

Diário de um analisando em Paris, p.30



5 de junho de 2014

0

Do amor



Observo nas conversas que tenho tido, nas pessoas ao meu redor, que elas não colocam o amor na pauta do dia de suas vidas. Não falo de ter ou não um relacionamento: falo de ter um amor. Para elas, independentemente de terem ou não um parceiro, o amor não é uma realidade concreta. O que eu quero dizer com isso? Que elas têm o amor como algo que só existe no pensamento, como uma realidade abstrata, difusa, como um número, um objeto geométrico, como falar da origem do universo ou de estrelas que brilham no céu, mas deixaram de existir há anos luz. Algo irremediavelmente perdido num passado mítico do qual trazem alguma lembrança, ou guardado a sete chaves num futuro que anseiam chegar logo, mas temem nunca chegar. E não chega mesmo: o próprio do futuro é estar sempre por vir.

O paradoxal nisso tudo é que, mais ou menos explicitamente, todo mundo busca um amor, ou diz buscar, diz querer. O problema, dizem as pessoas, é que não encontram. O problema vem do outro, da ausência desse outro, da sorte, da má sorte. E seguem falando de trabalho, de política, de filhos, de problemas, de coisas interessantes – outras menos interessantes, outras tantas chatas – de dinheiro – ou da falta de – de aquecimento global, de vulcões, de greve disso, de greve daquilo, de feio, de bonito, de dieta, de malhação. E de amor? Amor, só em filme, livro, e olhe lá! Pois amor não é coisa real, é fantasia, como carnaval. Brincadeira, passatempo, quando se tem tempo. E como nunca sobra tempo: “deixa rolar, paciência... fazer o quê?” 

Tudo, menos esperar. Esperar ter tempo para amar, que perda de tempo! O amor não requer espera, requer decisão. Decisão e comprometimento. Não há que se esperar para amar, há que se determinar a amar, a dar amor ao tempo, isso sim, dar todo amor a todo tempo. Começando agora, já. Nada de deixar rolar, de depois, amanhã, quando houver tempo. O presente é o único tempo que existe. E ele está a espera de que o preenchamos com amor. Aí, ele para de correr e passa a fazer sentido. Quem diz buscar, querer o amor, deve antes de tudo se perguntar: o que eu estou fazendo ao longo dos meus dias para tornar o amor presente?

Perguntam-me: “Como vai? O que você tem feito?” Eu respondo: “Estou amando”. Isso causa uma surpresa desconcertante, um sorriso meio indiferente, como se o amor não tivesse lugar na vida real, não se encaixasse em nenhuma hora útil do dia. Mais do que isso, como se amar não fosse um fazer, um cuidar, um viver. “Como uma criatura, com tantas coisas e problemas no mundo, diz que amar é o que ela tem feito?”. E riem-se, mais ou menos ironicamente, disfarçadamente. Na verdade, disfarçam o profundo vazio da falta de amor em suas vidas, com pretensa seriedade e aparente indiferença. Como se houvesse verdadeiramente valor para além do amor, para além do afeto.

Pois eu digo: nada mais sério e digno de cuidado, sem amor, dramático o existir! “Resolvi dar um tempo no amor, cuidar mais de mim”, confidenciou-me um amigo. Como se o amor e o cuidado de si se excluíssem, como se houvesse melhor maneira de cuidar de si do que amar, como se houvesse algum si para além do amar.

Como se amar fosse à parte. Uma parte. Não é. Fora do amor, se é?

Amar faz ser. Amor é o todo, pois de tudo é o sentido. Não é parte, nem à parte.

É o ser inteiro em ação, a exclamar como o Sol: agora, sim, eu vivo, eu vivo, eu vivo!

0

O calvário do psicanalista



Bam-bam-bam dizia que psicanálise não é uma filosofia, uma visão de mundo, uma concepção de vida: é um dispositivo. O analista só é analista no consultório, e o que conta é o que se passa dentro dele.
– O calvário do psicanalista – disse ele – é que as pessoas costumam achar que ele é psicanalista 24h por dia. Uma vez durante um jantar de gala – fez pose de celebridade – tive um gesto desastrado e acabei derramando vinho e sal na minha roupa. Enquanto eu me enxugava, uma senhora sentada ao meu lado indagou: que interpretação o senhor que é psicanalista dá a esse acidente?
Bam-bam-bam fez uma careta bufante, impagável: a turma toda riu. E ante a indagação da conviva, protestou:
– Eu estou todo molhado, cheio de sal e ainda por cima tenho que interpretar! Merde!



Diário de um analisando em Paris, p. 71

4 de junho de 2014

0

Vous voulez parler de votre solitude


"... E mudando de expressão como se estivesse divagando, disse sílaba por sílaba: – la so-li-tu-de.
Ficamos em silêncio. Imaginei os quadros do Hopper, o café na esquina, o casal, o homem no balcão, o barman, e comecei a descrever:
– Sim, a solidão, um muro entre os personagens, a atmosfera congelada, nada se move, ninguém fala, cada um sozinho no seu canto, em silêncio...
Foi então que ela, olhando nos meus olhos como se atravessasse uma parede, disse:
– Vous voulez parler de votre solitude."

Diário de um analisando em Paris, p. 74

2 de junho de 2014

0

Solta-te!

"Quando lamentas não vives
Fechas os olhos diante do frio
do seco, do áspero, do escorregadio
da graxa, da luz, do breu
do indisposto, do inerte, do bruto
do desfeito, do insano, do corte
Acabas te encolhendo
num mundinho de coisas eleitas
o conhecido que não aceita o novo
o mesmo que rejeita o outro
o sabido que não sabe compreender
a voz que fala mas não ouve
o presente que resiste ao fluir
o certo que não ousa arriscar
Vida de amarras, de nós, de lamentos
Solta-te!
Perde, criatura, o menos tempo possível em lamentações!
Fixa teu olhar na quadratura insensata do mundo
este mundo que não tem par
e experimenta de que maneira podes mover-te dentro dela
Abrange teu círculo
abre bem os olhos
faz de tua lamentação o ponto central
de onde infinitamente te distancias"

Diário de um analisando em Paris, p. 175

1 de junho de 2014

0

Gozo

"Gozo – não é sinônimo de prazer sexual, orgasmo; é o inverso do prazer; algo que se manifesta como desprazer ou sofrimento em nível consciente (sintoma), mas que satisfaz em nível inconsciente; impossível de se conhecer: somente através do sofrimento que ele gera (sintoma) é que se pode ter uma ideia do gozo; é “autista”, isto é, relação do sujeito consigo mesmo (exclui o Outro); é a tal ponto insistente e inextinguível que sempre tem a ver com o que a psicanálise chama de “pulsão de morte”: o gozo cobra incessantemente do sujeito do inconsciente sua plena satisfação (o que é impossível), daí à compulsão à repetição, ocasionando a deterioração do corpo e até mesmo a destruição do sujeito. É o caso da anorexia, da bulimia, das adicções (drogas, álcool, sexo, trabalho), onde o gozo é uma exigência tão imperativa que se torna mortífero."

Diário de um analisando em Paris, p. 185
0

Eu-ternidade de pa-lavras


"Pont des Arts. Um casal inclinava-se languidamente no banco – teria varado a noite como eu? – uma velha cambaleava num passo tic-tac, um violão rouco desafinava longe. A água esverdeada do rio, suas margens, os b
arcos, pedras tortas, encardidas, a folhagem dos plátanos, o céu pálido, uma mancha alaranjada ao fundo. Paris ali quieta, morna, insone, atravessando as horas, dias, séculos. Eu atravessando a ponte, livre do desassossego da madrugada, do medo, olhos bem abertos. Paris, adorada Paris, eu e meu desejo."

Diário de um analisando em Paris, p. 23