16 de dezembro de 2015

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Les Demoiselles de New York



Picasso, Les Demoiselles d'Avignon

Os franceses, para quem Picasso é Picassô, e que possuem esmagadora maioria das obras do mestre espanhol – o espetacular Musée Picasso no Marais que o diga – devem sentir, digamos, uma pontinha de castração quando vêm a New York. Sabe álbum de figurinha que a gente tem quando criança e fica faltando algumas poucas para completar, em especial uma, aquela, a mais importante? 

Pois bem: Les Demoiselles d'Avignon, considerada a tela inaugural do Cubismo, realizada em 1907 no atelier de Picasso, em Montmartre, encontra-se, desde 1939, no MOMA, e não na cidade luz, onde Picasso produziu a maior parte de sua vida-obra. Resta um consolo. Paris tem arte e beleza de sobra, não se pode ter tudo: e é bom que seja assim. Um motivo a mais para se vir a New York.

Lembro de ter lido uma vez, palavras do próprio Picasso, que as Demoiselles representaram para ele um “primeiro exorcismo”. Bem, só mesmo ele para explicitar o que quis dizer com isso, mas com certeza há de ter sido uma experiência dos diabos, como o primeiro beijo, o primeiro sexo, o primeiro amor: o título inicial era El Burdel de Aviñón, alusão a uma rua caliente de Barcelona na qual Picasso vivia quando era rapazote, antes de emigrar para Paris. 

Certo é que, depois das Demoiselles, a pintura nunca mais foi a mesma: ela sofreu, digamos, uma torção, uma con-torção radical. Não foi à toa que gente boa, como o mestre Matisse – e cuja La danse está na sala ao lado das Demoiselles - torceu a cara para elas. E que muita gente continua a torcer - os parisienses, que não gostam de por azeitona na empada de ninguém, mais ainda. Nós, brasileiros, que vivemos uma castração análoga na própria pele, nos compadecemos com eles: Abaporu, de Tarsila, obra-prima de nossa pintora mais importante, encontra-se no MALBA, Museu de arte latino-americana de Buenos Aires, tendo passado das mãos de um empresário brasileiro a de um colecionador argentino num leilão na Christies. E tudo indica que nem o maior dos exorcismos a fará voltar ao Brasil, salvo um milagre. 

Seja como for, encontrar as Demoiselles é dos mais prazerosos rendez-vous que se pode ter em New York. Depois de visitar o MOMA a gente se sente meio exorcizado como se o próprio Picasso estivesse a exclamar em meio a suas Demoiselles: Eso es maravilloso, estoy aquí!

Les Demoiselles de New York. Sorry, Paris.

Claudio Pfeil

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