5 de junho de 2014

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O calvário do psicanalista



Bam-bam-bam dizia que psicanálise não é uma filosofia, uma visão de mundo, uma concepção de vida: é um dispositivo. O analista só é analista no consultório, e o que conta é o que se passa dentro dele.
– O calvário do psicanalista – disse ele – é que as pessoas costumam achar que ele é psicanalista 24h por dia. Uma vez durante um jantar de gala – fez pose de celebridade – tive um gesto desastrado e acabei derramando vinho e sal na minha roupa. Enquanto eu me enxugava, uma senhora sentada ao meu lado indagou: que interpretação o senhor que é psicanalista dá a esse acidente?
Bam-bam-bam fez uma careta bufante, impagável: a turma toda riu. E ante a indagação da conviva, protestou:
– Eu estou todo molhado, cheio de sal e ainda por cima tenho que interpretar! Merde!



Diário de um analisando em Paris, p. 71

4 de junho de 2014

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Vous voulez parler de votre solitude


"... E mudando de expressão como se estivesse divagando, disse sílaba por sílaba: – la so-li-tu-de.
Ficamos em silêncio. Imaginei os quadros do Hopper, o café na esquina, o casal, o homem no balcão, o barman, e comecei a descrever:
– Sim, a solidão, um muro entre os personagens, a atmosfera congelada, nada se move, ninguém fala, cada um sozinho no seu canto, em silêncio...
Foi então que ela, olhando nos meus olhos como se atravessasse uma parede, disse:
– Vous voulez parler de votre solitude."

Diário de um analisando em Paris, p. 74

2 de junho de 2014

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Solta-te!

"Quando lamentas não vives
Fechas os olhos diante do frio
do seco, do áspero, do escorregadio
da graxa, da luz, do breu
do indisposto, do inerte, do bruto
do desfeito, do insano, do corte
Acabas te encolhendo
num mundinho de coisas eleitas
o conhecido que não aceita o novo
o mesmo que rejeita o outro
o sabido que não sabe compreender
a voz que fala mas não ouve
o presente que resiste ao fluir
o certo que não ousa arriscar
Vida de amarras, de nós, de lamentos
Solta-te!
Perde, criatura, o menos tempo possível em lamentações!
Fixa teu olhar na quadratura insensata do mundo
este mundo que não tem par
e experimenta de que maneira podes mover-te dentro dela
Abrange teu círculo
abre bem os olhos
faz de tua lamentação o ponto central
de onde infinitamente te distancias"

Diário de um analisando em Paris, p. 175

1 de junho de 2014

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Gozo

"Gozo – não é sinônimo de prazer sexual, orgasmo; é o inverso do prazer; algo que se manifesta como desprazer ou sofrimento em nível consciente (sintoma), mas que satisfaz em nível inconsciente; impossível de se conhecer: somente através do sofrimento que ele gera (sintoma) é que se pode ter uma ideia do gozo; é “autista”, isto é, relação do sujeito consigo mesmo (exclui o Outro); é a tal ponto insistente e inextinguível que sempre tem a ver com o que a psicanálise chama de “pulsão de morte”: o gozo cobra incessantemente do sujeito do inconsciente sua plena satisfação (o que é impossível), daí à compulsão à repetição, ocasionando a deterioração do corpo e até mesmo a destruição do sujeito. É o caso da anorexia, da bulimia, das adicções (drogas, álcool, sexo, trabalho), onde o gozo é uma exigência tão imperativa que se torna mortífero."

Diário de um analisando em Paris, p. 185
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Eu-ternidade de pa-lavras


"Pont des Arts. Um casal inclinava-se languidamente no banco – teria varado a noite como eu? – uma velha cambaleava num passo tic-tac, um violão rouco desafinava longe. A água esverdeada do rio, suas margens, os b
arcos, pedras tortas, encardidas, a folhagem dos plátanos, o céu pálido, uma mancha alaranjada ao fundo. Paris ali quieta, morna, insone, atravessando as horas, dias, séculos. Eu atravessando a ponte, livre do desassossego da madrugada, do medo, olhos bem abertos. Paris, adorada Paris, eu e meu desejo."

Diário de um analisando em Paris, p. 23


31 de maio de 2014

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Un homme défenestré

"– O que aconteceu?
– Um homem se jogou da janela lá de cima, uns trinta anos – respondeu como um apresentador de telejornal, erguendo a cabeça em direção ao último andar.
Pensei: um homem de trinta anos se jogou da janela enquanto eu estava no consultório. Senti a angústia desse homem, a minha angústia, a angústia humana. Uns se acomodam, outros procuram um analista, outros se jogam pela janela. O que faz um homem se jogar do sexto andar? Que insuportável da vida pode ser pior do que uma queda insuportável? Lembrei-me do homem do quadro olhando os arranha-céus de New York. Imaginei o homem morto no chão, minutos atrás olhando os telhados de ardósia de Paris. E o consultório de minha analista logo ali, dobrando a esquina, do outro lado da rua, atrás da porta pesada.
Eu e o meu drama.
Terá o homem escapado ao seu?"

Diário de um analisando em Paris, p.47

29 de maio de 2014

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Fantasma fundamental

Glossário do analisando

"Fantasma (ou fantasia) fundamental – não é sinônimo de fantasma ou fantasia sexual; núcleo imaginário em torno do qual o sujeito se dá uma interpretação; Freud o chama de fundamental porque fundamenta o sujeito; “solução” absolutamente singular que cada um se dá para o enigma: quem sou? (resposta que não se pode obter do Outro); roteiro pessoal do qual somos autor e que nos permite ordenar nossa relação com a falta do objeto (objeto a); ponto fixo que não muda: nas diferentes situações da vida, tentamos colocar em cena o mesmo roteiro sem saber que fomos nós que o escrevemos; o que se busca localizar numa análise: se o roteiro é impossível de ser mudado, é no entanto possível vislumbrar o que está em jogo nele, possibilitando-nos escrever outras estórias."

Diário de um analisando em Paris, p. 184